Blog · 15 de outubro de 2026 · Paulo Cordeiro

Saneamento de cadastro por curva ABC: como priorizar em ondas

Sanear tudo ou só a curva A? Veja como cruzar curva ABC, criticidade, uso e risco para definir ondas e profundidade no saneamento de dados mestres.

Nem tudo de uma vez, nem só a curva A. Use a curva ABC de valor como ponto de partida, cruze com criticidade operacional, uso recente e risco, e decida antes o que sai da base. Depois organize o saneamento em ondas dentro do domínio, com profundidade diferente para cada classe de item.

"Vamos sanear a base inteira." "Não, só a curva A, que é onde está o dinheiro." Eu vi essa conversa muitas vezes em reunião de início de projeto de cadastro e de SAP. As duas pessoas estão erradas, cada uma de um jeito.

Quem quer sanear tudo descobre no terceiro mês que está padronizando descrição de item que ninguém compra há anos. Quem quer só a curva A esquece a peça barata da bomba: fica na classe C porque custa pouco e gira pouco, e é ela que para a linha quando falta ou quando ninguém acha no cadastro. Valor importa. Só que valor não conta a história inteira de um dado mestre.

O que é a curva ABC e de onde vem a definição?

A curva ABC classifica itens pela importância relativa. Na documentação da SAP sobre controle de estoques (ABC Analysis, SAP Help Portal), o texto diz, em tradução livre: "a análise ABC permite classificar materiais de acordo com sua importância. O critério principal é o valor de consumo ou o valor de necessidade."

O valor de consumo é o consumo do período valorizado pelo preço atual. O valor de necessidade são as necessidades futuras calculadas pelo MRP, valorizadas pelo preço do mestre de materiais. A classe A reúne os itens importantes (valor alto), a B os menos importantes (valor médio) e a C os relativamente sem importância (valor baixo). A mesma página lembra que, em geral, quanto maior o valor, maior a chance de melhoria.

Quem define onde cortar é a empresa. A página Performing an ABC Analysis descreve quatro estratégias: percentual do valor, valor absoluto, percentual do número de materiais e número absoluto de materiais. O sistema sugere 90 dias para trás (consumo) ou para frente (necessidade), mas aceita qualquer período. Essa documentação é da versão 1610 do SAP S/4HANA; opções e telas podem variar na sua versão.

Para estoque, isso resolve boa parte da conversa. Para saneamento de cadastro, falta coisa.

Sanear tudo ou só a curva A: qual dos dois está certo?

Nenhum dos dois, e pelo mesmo motivo: os dois tratam todos os itens de uma classe como se fossem iguais.

Sanear a base inteira de uma vez mistura item ativo com item morto. O time gasta horas em registro que deveria ser bloqueado, o projeto perde ritmo e a diretoria para de ver resultado antes de ver o fim.

Sanear só a curva A ignora três grupos que costumam aparecer na classe C ou nem aparecer na curva:

  • Peças de manutenção que param a operação quando faltam, mas custam pouco e giram pouco.
  • Itens de segurança ou com exigência de rastreabilidade.
  • Itens com campo fiscal sensível (o NCM, por exemplo) ou usados em interfaces com outros sistemas, em que um erro de cadastro gera problema fora do estoque.

E tem o caso inverso: item sem consumo nenhum não entra na curva A, mas também não deveria entrar no saneamento antes de alguém decidir se ele continua existindo.

A curva ABC basta para priorizar dados mestres?

Não basta. Ela é um critério necessário, porque mostra onde o dinheiro passa. Para cadastro, ela precisa ser cruzada com outros sinais. Esta é a matriz que eu uso como ponto de partida:

CritérioPergunta que respondeDe onde costuma vir
Valor (curva ABC)Por onde passa o dinheiro de compra e consumo?Consumo valorizado, necessidade do MRP, histórico de compras
Criticidade operacionalSe faltar ou for comprado errado, para alguma coisa?Manutenção, produção, lista de sobressalentes críticos
Uso recenteO item teve movimento, pedido ou requisição no período?Movimentos de estoque, pedidos, requisições
RiscoUm erro neste cadastro gera exposição fiscal, de segurança ou de compliance?Fiscal, qualidade, segurança do trabalho
EsforçoQuanto custa sanear este grupo com a profundidade necessária?Diagnóstico da base e tamanho das famílias

Os números da linha de base (duplicidade, completude, validade) entram no critério de esforço. Se você ainda não mediu, comece por como medir a qualidade do cadastro antes de sanear.

Como montar a curva ABC pensando em saneamento?

A curva de estoque que o planejamento já usa pode servir, mas quase sempre precisa de ajuste.

Passo 1: escolha o critério de valor

Consumo olha para trás, necessidade olha para frente. Para saneamento, eu prefiro somar o histórico de compras, um ajuste feito fora da análise ABC do SAP (a página citada usa só o valor de consumo ou de necessidade), porque item não estocável (serviço, material de aplicação direta, consumo imediato) não aparece no consumo de estoque e mesmo assim gera pedido todo mês.

Passo 2: defina o período

O padrão de 90 dias sugerido pela SAP é curto para quem tem sazonalidade ou parada anual de manutenção. Use um período que cubra o ciclo do negócio.

Passo 3: consolide as plantas

O mesmo material pode ser classe C numa planta e classe A em outra. Para cadastro, o registro é um só, então a classificação precisa olhar o grupo inteiro. A página Performing an ABC Analysis prevê essa opção: analisar todas as plantas, agrupando os dados de cada material.

Passo 4: separe quem não teve movimento

Antes de classificar, tire da conta os itens sem movimento no período. Eles vão para uma decisão própria, que é a onda 0. A mesma página permite incluir materiais com marca de eliminação e restringir a análise a itens de giro lento, o que ajuda a montar essa lista.

Como organizar as ondas dentro de um domínio?

Aqui a pergunta é quais registros e quais campos vêm primeiro dentro de materiais, por exemplo. Se a dúvida é qual domínio atacar antes, isso está em MDM de um domínio ou multidomínio.

OndaQuem entraProfundidade
Onda 0Itens sem movimento no períodoDecisão de bloqueio ou eliminação, sem sanear
Onda 1Ativos de classe A e todos os críticos ou de risco, de qualquer classeCompleta: descrição, atributos, unidade, campos fiscais, duplicidade
Onda 2Ativos restantes, agrupados por famíliaCampos críticos da família e duplicidade
Onda 3Cauda longa da classe C, sem criticidadeRegra na entrada e saneamento quando o item for solicitado de novo

Onda 0: decida quem sai da base

Não vale a pena sanear o que vai ser bloqueado. Leve a lista de itens sem movimento para as áreas donas e feche a decisão antes de começar a padronizar.

Onda 1: valor e criticidade juntos

Entram os itens A ativos e os itens críticos ou de risco, mesmo que sejam C. É aqui que a peça barata da bomba ganha prioridade.

Onda 2: o restante ativo, por família

Trabalhar por família deixa o padrão de descrição e os atributos consistentes. Um PDM de materiais ajuda a definir quais atributos cada família precisa ter. O esforço define a ordem das famílias: por exemplo, famílias pequenas e de alto impacto primeiro.

Onda 3: cauda longa por regra

Muitos itens, pouco valor, pouco uso. Em vez de sanear um por um, coloque regra na entrada e trate o item quando ele voltar a ser solicitado.

Se o saneamento faz parte de uma conversão para S/4HANA, a triagem tem outra lógica, que está em material master antes da conversão para S/4HANA.

Todos os campos precisam do mesmo nível de saneamento?

Não. Sanear todos os campos de todos os itens com a mesma profundidade é o jeito mais rápido de estourar o prazo.

Para os itens da onda 1, vale o pacote completo. Para a onda 2, foque nos campos que mudam decisão: descrição, unidade de medida, atributos da família e campos fiscais. Para a cauda longa, o mínimo que garante que o item seja encontrado e não seja cadastrado de novo. Os critérios para achar duplicados estão em materiais duplicados: como identificar.

Quando uma onda pode fechar?

Use um checklist curto, combinado no início com quem patrocina o projeto:

  • Os itens da onda atingiram a meta de qualidade definida na linha de base.
  • As áreas donas validaram as amostras e assinaram o resultado.
  • Os duplicados encontrados têm decisão registrada.
  • Existe regra na entrada para o mesmo erro não voltar naquele grupo.
  • A lista da próxima onda já está fechada, com os critérios da matriz.

Quais erros aparecem com mais frequência?

  • Usar a curva de estoque sem incluir compras de itens não estocáveis.
  • Sanear item que deveria ser bloqueado.
  • Classificar por planta e tratar o mesmo material com prioridades diferentes.
  • Deixar item crítico na fila da classe C.
  • Aplicar a mesma profundidade a todos os campos.
  • Fechar a última onda sem regra na entrada, e ver a base sujar de novo.

Exemplo hipotético: como a matriz muda a ordem

Exemplo hipotético, com números fictícios, só para ilustrar a lógica.

Imagine uma base de 30.000 materiais. A empresa escolhe 12 meses de compras e consumo e define seus próprios cortes de valor. Desses itens, 9.000 não tiveram movimento no período e vão para a onda 0. Sobram 21.000 ativos.

Pela curva de valor, 2.000 ficam na classe A. A manutenção aponta 600 sobressalentes críticos fora da classe A, 450 deles na classe C. O fiscal sinaliza outros 300 itens, também fora da classe A, com campo fiscal a revisar. A onda 1 fica com cerca de 2.900 itens, supondo que as listas não se sobrepõem (os 2.000 da classe A, os críticos e os de risco que não estavam nela). A onda 2 trata o restante ativo por família, e a cauda longa vai para regra na entrada.

Se a empresa tivesse seguido só a curva A, os 450 sobressalentes críticos estariam no fim da fila.

Por onde começar o saneamento por curva ABC?

  1. Meça a linha de base do domínio escolhido.
  2. Monte a curva de valor com compras e consumo, plantas consolidadas e período que cubra o ciclo do negócio.
  3. Separe os itens sem movimento e leve a decisão de bloqueio às áreas donas.
  4. Peça às áreas a lista de itens críticos e de risco.
  5. Monte a matriz, defina as ondas e a profundidade de cada uma.
  6. Combine o checklist de fechamento de onda antes de começar. O método completo de saneamento está na página de saneamento de cadastro.

Perguntas frequentes

A curva ABC de saneamento é a mesma curva ABC de estoque?

Não necessariamente. A curva de estoque olha consumo ou necessidade. Para saneamento, vale incluir o valor de compra, porque itens não estocáveis geram pedido e não aparecem no consumo de estoque.

Item sem movimento deve ser saneado?

Primeiro decida se ele continua na base. Se for bloqueado, não precisa de saneamento. Se for mantido, entra na onda que corresponder ao seu risco e à sua criticidade.

Qual período usar na curva?

A SAP sugere 90 dias como padrão, mas a empresa pode escolher qualquer período. Minha recomendação é usar um período que cubra o ciclo do negócio, incluindo sazonalidade e paradas de manutenção.

Dá para fazer curva ABC de fornecedores e clientes?

Dá: fornecedores por gasto e clientes por faturamento. Só que o risco cadastral não segue o valor. Um fornecedor de gasto baixo pode estar sem homologação, com documento vencido ou com situação cadastral que não confere com a Receita.

O que fazer com a cauda longa da classe C?

Colocar regra na entrada e sanear o item quando ele for solicitado ou reativado. Assim o esforço acompanha o uso real.

Quantas ondas um saneamento deve ter?

Não existe número certo. O que define a passagem é o critério de fechamento combinado no início, não o calendário.

Como a 4MDG pode ajudar

Priorizar exige saber o tamanho do problema. O diagnóstico da 4MDG roda sobre um recorte da base, sem instalar nada, e mede duplicidades, inconsistências, campos críticos vazios, registros inválidos e riscos fiscais escondidos. A partir dele, o saneamento de cadastro pode começar por um domínio só e terminar com governança contínua (regra na entrada, workflow de aprovação e indicadores), para o dado ruim não voltar. Se quiser montar a sua matriz de priorização com a gente, comece pela consultoria e diagnóstico ou fale pelo contato.

Fontes

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