Material master antes do S/4HANA: o que limpar antes e o que espera
A conversão para o S/4HANA mantém os dados de negócio. Veja o que limpar no material master antes, o que pode esperar o go-live e quem decide.
Na conversão para o SAP S/4HANA, a empresa mantém seus dados de negócio, e isso inclui o cadastro com seus problemas. Por isso, limpe antes tudo o que trava a carga ou contamina o planejamento: materiais marcados para eliminação, inativos sem saldo e sem documento aberto, duplicados com estoque ou pedido, dados de MRP por planta incoerentes e unidades de medida erradas. O que é estético ou de baixo impacto, como a padronização descritiva da cauda longa, pode esperar o go-live, desde que entre num plano de governança com dono e prazo.
"A gente limpa depois do go-live."
Já ouvi essa frase em muitos projetos SAP. Ela aparece no kickoff, todo mundo concorda, e a limpeza vai para uma linha do cronograma que ninguém abre. A cena seguinte costuma ser esta: primeiro mock de conversão, alguém roda o planejamento no ambiente novo e começa a ver sugestão de compra de item que ninguém usa há anos. O dado de planejamento daquele material continuava lá, preenchido, esperando alguém lembrar dele.
O S/4HANA não esquece nada. Ele leva o cadastro inteiro, com o que presta e com o que não presta.
O que a SAP diz sobre os dados numa conversão de sistema?
No material de metodologia do SAP Activate, a SAP explica que, na conversão de sistema, a empresa mantém "their business data, custom development, and configuration", ou seja, os dados de negócio, o desenvolvimento próprio e a configuração (SAP Learning, Analyzing System Conversion). A mesma lição coloca na etapa de preparação a orientação de limpar o código customizado e reduzir volumes de dados ("Clean up custom code and reduce data volumes").
A lição também cita duas ferramentas que servem de insumo para a lista de limpeza:
- SAP Readiness Check: traz o subconjunto dos simplification items que podem se aplicar ao sistema analisado e uma análise de volumes de dados no sistema de origem.
- Simplification items: a orientação é determinar quais são relevantes para aquele sistema específico.
Minha leitura operacional: a conversão é um transporte. Se o caminhão sai carregado de material que ninguém usa, ele chega carregado de material que ninguém usa. A diferença é que agora você pagou o frete.
Por que o material master pesa tanto no planejamento depois da conversão?
Porque o planejamento de necessidades lê o cadastro do material. Na documentação de processos do S/4HANA, a SAP registra que os dados relevantes para o MRP ficam no registro mestre do material, no nível de planta ("MRP-relevant data is stored in the material master record at plant level"), e que o MRP depende de configuração e da manutenção desses dados no cadastro: tipo de MRP, prazo de entrega ou de produção interna, indicador de tamanho de lote. A quantidade de suprimento resulta do procedimento de tamanho de lote gravado no cadastro (SAP Learning, Running Materials Requirements Planning).
A mesma fonte traz dois pontos que mudam a conversa sobre limpeza:
- No S/4HANA, a área de MRP vem ativa por padrão e não pode ser desativada ("the MRP area is active by default and cannot be deactivated").
- Se a empresa quer planejar depósitos separadamente dentro de uma planta, precisa configurar as áreas de MRP.
Tradução para quem cuida do cadastro: dado de MRP incoerente no nível de planta não fica escondido. Ele vira sugestão de compra, de produção ou de transferência. E se hoje existe algum planejamento por depósito no ECC, isso precisa estar mapeado antes, porque a forma de fazer no destino passa pelas áreas de MRP.
O que limpar antes da conversão?
Meu critério é simples: limpa antes o que trava a carga, o que contamina o planejamento ou o que quebra interface e customização. O resto entra na fila do pós go-live.
1. Materiais marcados para eliminação e inativos sem saldo e sem documento aberto
São os candidatos mais óbvios para reduzir volume, que é exatamente o que a SAP pede na preparação. Mas atenção: marcado para eliminação não é o mesmo que apagado. Antes de arquivar ou eliminar qualquer registro, confirme com o time SAP e com auditoria e fiscal quais regras de retenção se aplicam à sua empresa. Isso é recomendação minha, não norma. O passo a passo de diagnóstico e tratamento da base está descrito no saneamento de cadastro.
Para definir "inativo", use um limiar decidido pelo negócio, por exemplo meses sem movimento, e trate as exceções com nome e sobrenome: item sazonal, sobressalente crítico de manutenção, material de estoque de segurança. Sobressalente que não gira há anos pode ser justamente o que segura uma linha parada.
2. Duplicados com estoque, pedido ou lista técnica
Duplicado sem movimento é volume. Duplicado com saldo, pedido aberto ou presença em lista técnica é risco, porque o planejamento enxerga dois itens onde existe um. Esses precisam de decisão antes: qual código sobrevive, para onde vão saldo e documentos. Os critérios para encontrar duplicados estão no artigo sobre como identificar materiais duplicados.
3. Dados de MRP por planta incoerentes
Tipo de MRP preenchido em item inativo, prazo de entrega zerado em item comprado, tamanho de lote que não conversa com a embalagem do fornecedor. Como o MRP no S/4HANA lê esses campos no nível de planta, eles merecem revisão antes do primeiro mock.
4. Unidades de medida e conversões
Unidade base errada ou fator de conversão inconsistente entre unidade de compra e unidade base gera quantidade errada em pedido e estoque. É o tipo de erro que aparece no mock e consome a semana inteira de correção.
5. Campos que interfaces e customizações usam
Se uma interface com o WMS, o MES ou o portal de compras lê um campo do material, ou se um desenvolvimento próprio depende de um grupo de mercadorias específico, esse campo precisa estar correto antes. Quem sabe isso é o time técnico, então a lista sai do inventário de interfaces e do código customizado que já vai ser revisado na preparação.
O que pode esperar para depois do go-live?
Pode esperar o que não trava carga, não muda planejamento e não quebra interface. Exemplos:
- Padronização descritiva completa da cauda longa: itens de baixo giro com descrição livre podem ser padronizados depois, família por família, com PDM e template de características.
- Enriquecimento de atributos não críticos: dados técnicos que ninguém consulta para comprar, planejar ou faturar.
- Reclassificação de itens de baixo giro: ajuste de grupo ou classe sem impacto em interface, relatório regulatório ou regra de determinação.
A condição para "esperar" é ter dono, prazo e regra de governança para o cadastro novo. Sem isso, o "depois" vira nunca, e o item novo cadastrado no S/4HANA já nasce com o mesmo problema dos antigos.
Quem decide cada item da limpeza?
Na minha experiência, a limpeza emperra quando TI decide sozinha o que é inativo. TI conhece o volume, mas quem sabe se um item é sobressalente crítico é a manutenção. Quem sabe se um fornecedor ainda entrega aquele código é compras.
| Item da limpeza | Antes ou depois | Por quê | Quem decide |
|---|---|---|---|
| Materiais marcados para eliminação | Antes | Reduz volume; a SAP lista, na preparação, reduzir volumes de dados | Dados mestres, com validação do time SAP, auditoria e fiscal |
| Inativos sem saldo e sem documento aberto | Antes | Reduz volume e evita planejamento de item morto | Dono do dado por área (compras, manutenção, PCP) |
| Duplicados com estoque, pedido ou lista técnica | Antes | Planejamento enxerga dois itens onde existe um | PCP e compras, com dados mestres |
| Dados de MRP por planta | Antes | MRP lê esses campos no nível de planta | PCP e consultor MM/PP |
| Unidades de medida e conversões | Antes | Erro de quantidade em pedido e estoque | Compras, logística e dados mestres |
| Campos usados por interfaces e customizações | Antes | Quebra integração e desenvolvimento próprio | Time técnico SAP |
| Padronização descritiva da cauda longa | Depois, com plano | Não trava carga nem planejamento | Dados mestres |
| Enriquecimento de atributos não críticos | Depois, com plano | Não muda processo no go-live | Dados mestres e área usuária |
Os campos com efeito fiscal, como o NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul, que a Receita Federal define como nomenclatura regional para categorização de mercadorias), entram na lista com o time fiscal como dono. Não é o cadastro que decide regra fiscal.
Como provar que a limpeza não quebrou nada?
Limpeza sem prova vira discussão de opinião no comitê. Use os mocks de conversão para medir:
Compare contagens e saldos
Quantidade de materiais por tipo e por planta antes e depois, e saldo de estoque dos itens que sobreviveram. A diferença tem que bater com a lista aprovada de eliminação e fusão de duplicados.
Rode um MRP de teste
Compare as sugestões de compra e produção com o que o planejamento espera. Sugestão para item que deveria estar inativo é sinal de dado de MRP que escapou.
Confira listas técnicas e pedidos abertos
Nenhuma lista técnica ativa pode apontar para material eliminado, e nenhum pedido aberto pode ficar órfão depois da fusão de duplicados.
Para a linha de base de qualidade antes e depois, os indicadores estão no artigo sobre como medir a qualidade do cadastro.
Exemplo hipotético: a triagem de uma planta
Exemplo hipotético, com números ilustrativos. Uma indústria vai converter o ECC para o S/4HANA. Na planta principal existem 40 mil materiais. O comitê define como inativo o item sem movimento há 36 meses, sem saldo e sem documento aberto, com exceção dos sobressalentes críticos marcados pela manutenção e dos itens sazonais apontados pelo comercial.
A triagem separa três grupos: itens marcados para eliminação, que seguem para validação de arquivamento com o time SAP e auditoria; inativos fora das exceções, que recebem o mesmo tratamento; e duplicados com saldo, que ganham uma decisão de qual código sobrevive. Os dados de MRP dos itens ativos são revisados pelo PCP antes do primeiro mock. A padronização descritiva das famílias de baixo giro entra no plano de governança dos seis meses após o go-live.
No mock, o time compara contagens e saldos, roda o MRP de teste e confere listas técnicas. Só depois disso o comitê assina a lista final.
Por onde começar a limpeza do material master antes do S/4HANA
- Rode o SAP Readiness Check e liste os simplification items relevantes para o seu sistema. Eles são o primeiro insumo da lista de limpeza.
- Extraia o cadastro de materiais com saldo, últimos movimentos, documentos abertos e presença em lista técnica, planta por planta.
- Defina com o negócio o critério de inatividade e as exceções, por escrito.
- Separe o que é "antes" e o que é "depois" usando a tabela acima, e dê um dono para cada linha.
- Valide arquivamento e eliminação com o time SAP e com auditoria e fiscal.
- Use os mocks para provar o resultado: contagens, saldos, MRP de teste, listas técnicas e pedidos abertos.
- Monte o plano de governança para o que ficou para depois, com prazo e responsável.
O lado de clientes e fornecedores tem outra lógica na conversão, que está no artigo sobre Business Partner no S/4HANA. Para a visão geral de migração, veja migração de dados para projetos com SAP. E o desenho completo do serviço está na página de migração de dados para SAP S/4HANA.
Perguntas frequentes
Preciso limpar todo o cadastro de materiais antes de converter?
Não. Limpe antes o que trava a carga, contamina o planejamento ou quebra interface: eliminados, inativos sem saldo e sem documento aberto, duplicados com movimento, dados de MRP por planta, unidades de medida e campos usados por integrações. O restante pode ir para um plano de governança pós go-live, com dono e prazo.
Posso apagar materiais antigos antes da conversão?
A SAP lista, na preparação, reduzir volumes de dados, mas arquivar ou eliminar registros é uma decisão que deve ser validada com o time SAP e com auditoria e fiscal, por causa de regras de retenção. Minha recomendação é tratar eliminação como processo aprovado, nunca como limpeza feita por script numa sexta-feira.
O que fazer com materiais marcados para eliminação?
Verifique se ainda têm saldo, documento aberto ou presença em lista técnica. Se não tiverem, eles são candidatos à redução de volume antes da conversão, sujeitos à validação de arquivamento. Se tiverem, a marcação está errada ou o processo ainda depende do item, e isso precisa ser resolvido antes.
A limpeza deve ser feita no ECC ou no S/4HANA?
Para os itens que travam a conversão ou contaminam o planejamento, no ECC, antes da conversão, porque a conversão mantém os dados de negócio, e o que estiver errado na origem segue para o destino. O que pode esperar é tratado no S/4HANA depois do go-live, já com as regras de governança do cadastro novo.
Conversão ou nova implantação muda o que limpar?
Muda o momento. Na conversão de sistema, a SAP descreve que a empresa mantém os dados de negócio, então a limpeza precisa acontecer na origem. Na prática, numa nova implantação, os dados são migrados para um sistema novo, e a seleção e o saneamento acontecem no próprio processo de migração, com mapeamento e testes de carga. Nos dois casos, a triagem entre "antes" e "depois" continua valendo.
Com quanto tempo de antecedência a limpeza deve começar?
Não existe prazo padrão que sirva para qualquer empresa. Minha recomendação é começar assim que o Readiness Check estiver disponível e antes do primeiro mock, porque é o mock que vai provar se a limpeza funcionou. Começar depois do primeiro mock significa corrigir e testar ao mesmo tempo.
Como a 4MDG pode ajudar
A 4MDG faz migração de dados para o SAP, inclusive de ECC para S/4HANA, com metodologia integrada ao SAP Activate: mapeamento De/Para, testes de carga com correção antes do definitivo e cutover com critérios de aceite por objeto. Antes de carregar, saneamos os principais dados mestres, incluindo material, com deduplicação, padronização descritiva, enriquecimento e validação. Veja a página de migração SAP S/4HANA. Se quiser saber onde está o seu cadastro de materiais antes de definir o escopo da limpeza, peça o diagnóstico: ele é feito sobre um recorte real da base, sem instalar nada no seu ambiente, ou fale com a gente pelo contato.
Fontes
- SAP Learning. Discovering SAP Activate: Implementation Tools and Methodology, lição "Analyzing System Conversion". https://learning.sap.com/courses/discovering-sap-activate-implementation-tools-and-methodology/analyzing-system-conversion_e1dd4c82-3bcf-4cd0-a4f8-6a2ce6ce8a64. Acesso em 13/10/2026.
- SAP Learning. Business Processes in SAP S/4HANA Sourcing & Procurement, lição "Running Materials Requirements Planning". https://learning.sap.com/courses/business-processes-in-sap-s-4hana-sourcing-procurement/running-materials-requirements-planning. Acesso em 13/10/2026.
- Receita Federal. NCM. https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/aduana-e-comercio-exterior/classificacao-fiscal-de-mercadorias/ncm. Acesso em 13/10/2026.
As funcionalidades SAP citadas variam por release e devem ser validadas com a documentação da versão usada pela sua empresa.
Paulo Cordeiro, fundador e CEO da 4MDG.