Blog · 20 de outubro de 2026 · Paulo Cordeiro

Cadastro de materiais no SAP MM: visões, campos obrigatórios e qualidade

Como definir campos obrigatórios por visão e por tipo de material no SAP MM, e por que tudo opcional ou tudo obrigatório derruba a qualidade do cadastro.

No SAP, o cadastro de materiais é dividido em visões, uma para cada área que usa o item: dados básicos, compras, MRP, contabilidade, armazenagem, vendas e outras. A qualidade do cadastro depende de decidir, para cada visão e para cada tipo de material, quais campos são obrigatórios, quais são opcionais e quais nem precisam aparecer. Deixar tudo opcional salva cadastro incompleto; deixar tudo obrigatório faz o campo ser preenchido com qualquer coisa só para passar.

Segunda de manhã, o comprador abre um chamado: "O pedido não sai, o sistema diz que o material não está mantido para compras." O material foi criado na sexta pela manutenção, com descrição e unidade, e ninguém ampliou a visão de compras. A central de cadastro corre para completar, o comprador espera, a peça atrasa.

A cena oposta também é comum, e costuma ser assim: a empresa resolve "acabar com cadastro incompleto" e torna obrigatório quase tudo. Pouco tempo depois, aparecem estoques de segurança preenchidos com qualquer valor em itens que nunca foram estocados e campos preenchidos com "X" porque o analista precisava salvar. O cadastro ficou completo e a informação continuou errada.

O que são as visões do cadastro de materiais no SAP?

São os blocos de dados do mestre de materiais organizados por área de usuário (user department). A documentação do SAP ERP explica que, como várias áreas trabalham com o mesmo material e cada uma usa informações diferentes, os dados do registro mestre são estruturados por áreas de usuário, como contabilidade, dados básicos, classificação, custos, previsão, planejamento de materiais, compras, gestão de qualidade, vendas, armazenagem e gestão de depósito.

No SAP S/4HANA, a lição da SAP Learning sobre criação de registros mestre de materiais para compras descreve o que cada visão guarda. Dados básicos têm texto breve do material, unidade de medida básica, peso e volume. Compras tem grupo de compradores por centro, tolerâncias de excesso e falta de fornecimento, unidade de pedido e indicadores de controle. MRP tem estoque de segurança, prazo de entrega planejado e tipo de MRP. Contabilidade tem controle de preço e preço de avaliação atual.

Um ponto da documentação do SAP ERP ajuda a entender o resto: descrição do material e unidade de medida básica aparecem em todas as áreas, são obrigatórias e idênticas para todas. A própria SAP orienta que as áreas decidam juntas o que entra nesses campos.

O que decide quais visões e campos aparecem no cadastro?

Dois mecanismos, que se somam.

O tipo de material

Segundo a SAP Learning, o tipo de material controla, entre outras coisas, as telas exibidas e a sequência delas, as áreas de usuário que podem ser mantidas, o tipo de suprimento (produção interna, compra externa ou ambos) e a atualização de quantidade e valor no estoque. A documentação do SAP ERP dá um exemplo simples: no sistema padrão, uma matéria-prima não mostra as telas de vendas, porque matéria-prima não é vendida.

Ainda na documentação do SAP ERP, a sequência de telas e a seleção de campos também dependem dos componentes SAP que a empresa usa, do setor industrial e dos níveis organizacionais em que os dados são inseridos. Quem cadastra escolhe as visões no diálogo de seleção de visões e depois informa os níveis organizacionais, como centro e depósito.

A seleção de campos

É a configuração que diz como cada campo se comporta. A lição da SAP Learning sobre seleção de campos no mestre de materiais lista quatro atributos:

  • Oculto: o campo não aparece. Serve para o que a empresa não usa.
  • Exibição: o campo aparece, mas não aceita entrada. Serve para valores preenchidos, por exemplo, na transferência de dados e que não devem ser alterados.
  • Entrada obrigatória: o usuário tem que preencher.
  • Entrada opcional: o usuário pode preencher, mas não precisa.

Os campos são agrupados em grupos de seleção de campos. No SAP S/4HANA são 240 grupos, 40 deles reservados ao cliente. E a regra pode variar por fatores de influência, como tipo de material, setor industrial ou centro. Ou seja: o mesmo campo pode ser obrigatório para um tipo de material e opcional para outro.

Por que deixar tudo opcional derruba a qualidade do cadastro?

Porque o SAP deixa salvar e o problema só aparece lá na frente, no processo de outra área. O cadastro passa pela central, ninguém reclama, e o erro surge no pedido de compra, na rodada do MRP ou na valoração do estoque.

A SAP Learning mostra isso com o status de manutenção. Cada área de usuário tem um status, e ele indica se o material está mantido o suficiente para aquele processo. O de compras é E: para criar um pedido de compra, o material precisa ter o status E. Se o tipo de material tem gestão de estoque por valor, também precisa dos dados de contabilidade, status B. Foi exatamente o que travou o comprador da cena do início.

O outro efeito é menos visível no dia. Campo opcional vazio vira lacuna na base, e a lacuna só aparece quando alguém mede. Como medir completude por visão é assunto do texto sobre como medir a qualidade do cadastro.

E deixar tudo obrigatório resolve?

Não. Campo obrigatório garante que algo foi digitado, não que o valor está certo. Quando o analista da central é obrigado a preencher tipo de MRP, estoque de segurança e prazo de entrega planejado de um item que ele não conhece, ele chuta ou copia de outro material. O cadastro sai "completo" e a informação de planejamento fica errada.

Há também um limite técnico. A SAP Learning alerta que existem campos para os quais o próprio programa exige entrada, como a unidade de medida básica, e que esses campos não devem ser ocultados. Mexer na seleção de campos sem saber o que o sistema já exige cria outro tipo de problema.

Eu prefiro a regra mais simples: obrigatório é o campo sem o qual o processo daquela área não funciona, para aquele tipo de material. O resto é opcional ou oculto.

Como definir os campos obrigatórios por área e por tipo de material?

Passo 1: liste os tipos de material que a empresa usa de verdade

Comece pelos tipos com mais cadastro novo. Para cada um, anote quais visões ele precisa. Um material comprado e estocado precisa de compras, MRP, armazenagem e contabilidade. Um material de consumo comprado e não estocado talvez não precise de MRP.

Passo 2: dê um dono para cada visão

Quem preenche compras é quem sabe comprar. Quem preenche MRP é quem planeja. A central de cadastro coordena e confere. A divisão entre quem é dono do dado e quem cuida dele está no texto sobre data owner e data steward no cadastro.

Passo 3: para cada visão, pergunte o que trava o processo

Com o dono da visão, liste os campos sem os quais o processo dele não roda. Esses são os candidatos a obrigatório. Campo que a empresa não usa vai para oculto. Campo preenchido por carga e que não deve mudar vai para exibição.

Passo 4: documente a regra antes de configurar

Uma planilha simples resolve: tipo de material, visão, campo, atributo (obrigatório, opcional, oculto, exibição), dono e motivo. Essa planilha é a política de cadastro. A configuração no SAP vem depois.

Passo 5: configure e teste

A SAP Learning descreve a sequência: identificar o grupo de seleção de campos que contém o campo, verificar se outros campos do mesmo grupo devem seguir a mesma regra (se não, mudar a atribuição do campo), definir o fator de influência (por exemplo, tipo de material), achar a referência de campo atual, alterar ou criar uma nova e testar.

A tabela abaixo ajuda na conversa com as áreas. As colunas "quem mantém" e "o que dá errado" são recomendação e leitura de prática, não regra do sistema. Os campos são exemplos da documentação SAP.

Visão (área)Quem mantém (recomendação)Campos que costumam decidir o processo (exemplos SAP)O que dá errado se ficar vazio
Dados básicosCentral de cadastroTexto breve do material, unidade de medida básica, peso, volumeSem unidade de medida básica o sistema não salva; peso e volume vazios aparecem quando a logística precisa calcular carga
ComprasComprasGrupo de compradores, tolerâncias de excesso e falta de fornecimento, unidade de pedidoSem a visão de compras o pedido não é criado; sem grupo de compradores ninguém sabe quem responde pela compra do item
MRPPlanejamentoTipo de MRP, prazo de entrega planejado, estoque de segurançaO item não é planejado como a área espera, ou é planejado sem considerar o tempo real de reposição
ContabilidadeControladoria ou custosControle de preço, preço de avaliação atualMaterial com gestão de estoque por valor não chega ao pedido sem os dados de contabilidade; preço de avaliação errado distorce o valor do estoque
ArmazenagemAlmoxarifadoUnidade de saída, condições de armazenagem, dimensões da embalagemQuem recebe e entrega o item não tem a informação de como guardar e em que unidade entregar
VendasComercialPreço de venda, quantidade mínima de pedido, grupo de categorias de itemO processo de venda fica sem os dados de que precisa para cotar e faturar

Como saber se uma visão está completa?

Pelo status de manutenção, que a SAP Learning define por área de usuário: ele diz se o material está mantido o suficiente para um processo. A função "Extend Material View(s)" (MM50), que exibe ou mantém materiais que podem ser ampliados, é a que a SAP indica para verificar se um material está suficientemente mantido.

Status de manutenção diz se a área foi mantida o suficiente para o processo. Não diz se o valor dentro dela está certo. Para isso, a regra da política de cadastro e a conferência da central continuam valendo.

Como fica isso num exemplo?

Exemplo hipotético, criado só para ilustrar. Empresa, itens e regras são fictícios.

Uma indústria hipotética compra dois tipos de item para a manutenção. O primeiro são peças sobressalentes estocadas, que ficam no almoxarifado e são repostas por planejamento. O segundo são materiais de escritório comprados com frequência e não estocados, cadastrados com o tipo de material NLAG. A SAP Learning explica que, no padrão, o NLAG não tem atualização de quantidade nem de valor, e a quantidade do pedido é lançada como consumo na entrada de mercadorias.

A central de cadastro senta com compras, planejamento e almoxarifado e chega a esta política:

  • Sobressalente estocado: visões de compras, MRP, armazenagem e contabilidade sempre. Grupo de compradores, unidade de pedido, tipo de MRP e prazo de entrega planejado obrigatórios. Estoque de segurança opcional, preenchido pelo planejamento quando o item é crítico.
  • Material NLAG: visão de compras sempre, com grupo de compradores e unidade de pedido obrigatórios. Como o NLAG tem visão de contabilidade, ela entra para o preço de avaliação usado na requisição. Campos de planejamento que a empresa não usa para esse tipo ficam ocultos.

Com essa regra, o analista não é obrigado a inventar estoque de segurança para material de escritório, e a peça sobressalente não sai do cadastro sem o dado de que o planejamento precisa.

Como mudar a obrigatoriedade sem quebrar a base existente?

A configuração nova vale para o que for mantido daqui para frente. Os materiais antigos continuam com os campos vazios. A SAP Learning faz o alerta direto: ao tornar campos obrigatórios, verifique se materiais existentes são afetados e, se necessário, complete os dados que faltam nesses materiais.

Eu faria assim:

  1. Antes de configurar, levante quantos materiais ativos de cada tipo estão com o campo vazio.
  2. Decida com o dono da visão o valor correto para esses materiais, por família ou item a item.
  3. Complete a base antes, ou junto com a mudança, para que a próxima alteração em um material antigo não pare a operação.
  4. Teste a regra nova em ambiente de testes, com materiais de cada tipo.
  5. Avise as áreas sobre a data e o motivo da mudança.

Se a empresa está perto de converter para o SAP S/4HANA, a prioridade muda. O que limpar antes da conversão está no texto sobre o material master antes da conversão para S/4HANA.

Por onde começar?

  1. Pegue os três tipos de material com mais cadastro novo no último trimestre.
  2. Para cada um, liste as visões necessárias e o dono de cada visão.
  3. Com cada dono, marque os campos que travam o processo dele. Esses são os obrigatórios.
  4. Escreva a regra na política de cadastro antes de pedir a configuração.
  5. Meça quantos materiais ativos já estão fora da regra e planeje o saneamento dessa base. A página de saneamento de cadastro de materiais mostra como esse trabalho é organizado.
  6. Configure, teste e acompanhe os chamados de "material não mantido" nas semanas seguintes.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre campo obrigatório no SAP e campo obrigatório na política de cadastro?

O campo obrigatório no SAP é uma configuração: o sistema não deixa salvar sem ele. O obrigatório da política é uma regra da empresa, que pode ser conferida pela central mesmo quando o sistema permite salvar. O ideal é que os dois coincidam, e que a política seja escrita primeiro.

Posso mudar o tipo de material depois de criado?

Segundo a SAP Learning, só se não houver estoque nem documentos em aberto para o material. No SAP S/4HANA, a troca é feita pelo app Change Material Type no SAP Fiori launchpad ou, no SAP GUI, pela transação MMAM. Por isso vale escolher o tipo certo na criação.

Como ampliar uma visão que ficou faltando?

A função "Extend Material View(s)" (MM50) exibe ou mantém os materiais que podem ser ampliados. Na prática, a visão costuma ser incluída pela criação de material (MM01), escolhendo a visão e os níveis organizacionais que faltam. O app Create Material, no SAP Fiori launchpad, tem a mesma experiência da MM01.

Tornar um campo obrigatório resolve a qualidade do dado?

Resolve o vazio, não o valor errado. Um campo obrigatório sem regra clara de preenchimento e sem dono tende a receber valores genéricos. Qualidade vem da regra, do dono da visão e da conferência, com a obrigatoriedade como apoio.

Quem deve pedir a mudança na seleção de campos?

O pedido deve sair da governança de dados mestres, com a concordância do dono da visão afetada e o levantamento dos materiais existentes que serão impactados. A configuração fica com o time responsável pelo SAP. Mudança pedida direto por uma área, sem essa conversa, costuma travar o trabalho de outra.

Como a 4MDG pode ajudar

No saneamento do mestre de materiais no SAP, a 4MDG entrega o item com descrição padronizada, tipo de material, grupo de mercadorias e unidade de medida conferidos, com carga no SAP ECC ou S/4HANA, e com regra na entrada e workflow de aprovação para o duplicado não voltar. Em projeto de migração para o SAP S/4HANA, os dados mestres são saneados e padronizados na origem, antes da carga. Se quiser entender onde o seu catálogo está incompleto, peça o diagnóstico gratuito pela consultoria e diagnóstico ou fale com a gente pelo contato.

Fontes

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